quarta-feira, 16 de junho de 2010
O Bar
Compra de terno
Avesso à frescuras e outros "balaios-de-gato", como costuma dizer em seu linguajar chulo e rebuscado de folclorismo, Ori Bernardo, próspero comerciante do Abraão, relutou em aceitar o convite para ir a festa de casamento de um amigo no Clube Doze de Agosto. "Vou, mas tenho que comprar um terno novo, que vai ser guardado pro meu enterro. Engordei muito e o meu antigo não serve mais." Entretanto, a compra da nova indumentária, com certeza, não vai repetir as cenas pitorescas quando da compra do traje anterior, por dois motivos aparentemente simples: há muito ele abominou o álcool e a loja Alfred não existe mais.
A dúvida para a compra daquele terno para o casamento do amigo se arrastou durante um mês inteiro, por causa das constantes desavenças com a mulher, dona Karina, uma santa que por aturar os aprontos do marido durante tantos anos, tem passagem assegurada para o reino dos céus. Quando o marido estava de porre, ela, irritada, prometia que não iria mais ao casamento. Quando ele curava a ressaca, era ele quem se recusava a marcar presença.
No dia do casamento, como era de costume, Ori chegou da farra pela manhã e estabeleceu-se um novo entreveiro. O comerciante bateu na mesa e decidiu: "Vamos pr'esse casamento e tá'cabado".
Bateu a porta, tomou o táxi de um amigo que ficara à sua disposição durante a noitada e se dirigiu para o centro da cidade com à disposição de comprar um terno na loja Alfred, numa carraspana desgraçada. Decidiu continuar o aquecimento etílico num bar das proximidades, sorvendo generosas doses de uísque. Acompanhado do motorista entrou no magazine e foi logo cercado pelos vendedores, perplexos diante de suas costumeiras cuspidas no chão, como se estivesse num botequim da esquina. Retirou o cheque do bolso e iniciou o diálogo com o balconista.
- Mo chapa, dinheiro é o que não falta. Preciso comprar um terno bacana pra ir a um casamento com a minha mulher. Mas quero um "balaio-de-gato" (traje) completo. Paletó, calça, camisa, gravata, cinto, meia, sapato e abotoaduras.
De olho numa boa venda, o balconista derreteu-se em gentilezas, mas não esperava por um súbito pedido do comprador.
- Tens uísque aí? Eu to bebendo aqui no bar do lado e deixei o meu copo lá.
- É impossível servirmos bebida aqui na loja, senhor! - respondeu o vendedor.
- Então deixa, vou comprar esse "balaio-de-gato" na Modelar.
O balconista, disposto a não perder a venda, chamou o gerente e explicou a insólita condição de seu cliente para fazer a compra. Não houve objeção. Ori Bernardo passou toda a manhã na Alfred provando ternos, com sucessivas doses de uísque sobre o balcão da loja, assessorado pelo taxista, convocado para emitir a sua opinião sobre a elegância do manequim do Abraão. (Crônica de Aldírio Simões publicada no ANCapital de 06 de ,maio de 2000).
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